Múltiplos encontros, acasos e desencontros constroem Pachamama, novo filme de Erik Rocha, filho de Glauber Rocha, que percorre a floresta brasileira em direção ao Peru e à Bolívia. Com um roteiro ditado pela trajetória da própria viagem, o filme explora as questões culturais e políticas dos três países, propondo uma reflexão sobre o sincretismo dos povos latinos.
Pachamama significa “mãe-terra” para os indígenas andinos e designa a deusa agrária dos camponeses. A emancipação política, econômica e social vivida pelo Brasil atualmente, e principalmente a articulação entre os países sul-americanos, foi o que motivou a equipe a produzir o filme.
“Estamos vivendo um processo de rearticulação das bases institucionais, dentre as quais a política externa, tradicional, que reviu o seu entorno geográfico e entendeu a importância estratégica de ter estreitas, e sólidas, relações com seus vizinhos terrestres”, explicou ao Opera Mundi o historiador Daniel Chaves, responsável pela parte de pesquisa histórica de Pachamama.
Produto de uma viagem com duração de um mês, o longa destrincha a América do Sul a partir de depoimentos de cidadãos comuns, encontrados em várias regiões de cada um dos países.
A viagem teve início no Rio de Janeiro, seguiu para a região Centro-Oeste, atravessou a Chapada dos Parecis, a parte ocidental da Amazônia, até chegar à fronteira com o Peru. Lá, passou por cidades como Puerto Maldonado, Cuzco e Machu Picchu. Já na Bolívia, os cenários foram La Paz (El Alto), Potosi, Santa Cruz de La Sierra e o norte da região do Chaco Boreal em direção a Puerto Quijaro. Na volta ao Brasil, a equipe, composta pelo cineasta Erik Rocha, três historiadores e dois engenheiros mecânicos, gravou em Corumbá e no Pantanal brasileiro.
As filmagens aconteceram em 2007, mas nem por isso o filme foi prejudicado. “Talvez a única mudança tenha sido o cessar fogo do governo Morales com os autonomistas de Santa Cruz, o que não nos comprometeu. Já a questão do filme é projetar, não afirmar nem prever. É um retrato que se move, e não havia como não ser assim”, explica o historiador.
O longa entrou em cartaz em março no Brasil e, em uma iniciativa inédita de filmes latino-americanos, já tem data marcada para entrar em circuito também na Bolívia: sete de abril.
Evo
Pachamama aborda pontos comuns nos três países, como questões agrárias, sociais, urbanas e indígenas, sem esquecer as peculiaridades de cada região. “A ideia é fazer o público conhecer melhor a nós mesmos através dos nossos vizinhos. Quem sabe o Brasil, no fundo no fundo, não é tão esquálido e tão esbranquiçado politicamente como imaginamos”, diz Chaves.
Focado essencialmente na Bolívia, país que passa por um importante processo político desde 2005, com a eleição do primeiro presidente indígena do país, Evo Morales, o filme de Erik Rocha revela um continente em ebulição e deixa as comparações com o Brasil por conta dos espectadores.
Daniel Chaves explica que ainda que os outros países não fossem prioridade, é inegável que, movidos pela curiosidade e pelo entusiasmo, a Bolívia e o Peru tenham ganhado mais espaço no filme.
“Hoje, se você me perguntasse, eu diria que dedicaria mais tempo e mais profundidade no Brasil. Mas não acho que isso seja um demérito do filme, é só uma opção. Possivelmente, muitos diriam ‘mas já está bom de Brasil, vai direto ao ponto e mostra a Cordilheira’, etc. É bom esse debate”, afirma.
(Thais Romanelli)
SERVIÇO
Pachamama fica em cartaz pelo menos durante um mês nas salas de cinema.
Em São Paulo, pode ser visto nas salas Unibanco Arteplex (Shopping Frei
Caneca), Cine Bombril e no Espaço Unibanco. No Rio de Janeiro, o
Unibanco Arteplex e o Ponto Cine Guadalupe (Shopping Guadalupe) exibem
o longa.
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